segunda-feira, 1 de abril de 2013

POESIA DA SEMANA



SE ME PERGUNTARES

Se me perguntares
Quem sou eu
Cavada de bexiga de maldade
Com um sorriso sinistro
Nada te direi
Nada te direi
Mostrar-te-ei as cicatrizes de séculos
Que sulcam as minhas costas negras
Olhar-te-ei com olhos de ódio
Vermelhos de sangue vertido durante séculos
Mostrar-te-ei minha palhota de capim
A cair sem reparação
Levar-te-ei às plantações
Onde sol a sol
Me encontro dobrado sobre o solo
Enquanto trabalho árduo
Mastiga meu tempo
Levar-te-ei aos campos cheios de gente
Onde gente respira miséria em toda a hora
Nada te direi
Mostrar-te-ei somente isto
E depois
Mostrar-te-ei os corpos do meu Povo
Tombados por metralhadoras traiçoeiras,
Palhotas queimadas por gente tua
Nada te direi
E saberá porque luto.

Armando Guebuza
Moçambique, 1977


DESTAQUE

Inconfidência Mineira



     Acabo de voltar de uma viagem ao Rio, passando por Minas, onde pude visitar Ouro Preto e o Museu da Inconfidência. Lá adquiri alguns exemplares de livros sobre aquele episódio tão importante da nossa história, dentre os quais este, de Augusto de Lima Junior, editado pela Itatiaia de Belo Horizonte e cuja primeira edição data de 1936.
     O museu, situada na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Ouro Preto, é muito bonito, bem organizado e não dá pra deixar de dizer, emocionante.


O Museu da Inconfidência na antiga Casa de Câmara e Cadeia de Ouro preto
    
     Entrar na sala onde estão as cinzas dos inconfidentes, falecidos a maioria no exílio, com suas lápides e a bandeira de Minas é realmente uma experiência de abalar qualquer brasileiro que tenha amor a esta grande pátria.
     Mais do que isto, é uma experiência didaticamente organizada, para que possamos nos dar conta dos fatos que ocorreram naquele ano de 1789, naquela que era a província mais rica do antigo império português.
     A única ressalva ao museu está em relação à questão da escravidão, tratada pelos historiadores que organizaram a mostra de uma forma no mínimo inquietante. Ver instrumentos de tortura dos escravos expostos, com legendas dizendo que eles eram usados "pedagogicamente" para manter a disciplina dos africanos não deixa de ser revoltante.
     Também as explicações sobre a maneira como os negros escondiam diamantes nas "carapinhas", se referindo aos seus cabelos encaracolados, choca pelo conteúdo preconceituoso contra esta característica física da maioria da nossa população.
     Depois, ao ler o livro de Augusto de Lima, pude observar ainda algumas passagens racistas, típicas do ideário da época em que foi escrito, como a citação em que descreve fisicamente Tiradentes...De estatura acima do normal,de raça branca e pura, sem mistura de "mouro, judeu, mulato ou outra infecta nação", mas esta passagem não é do autor do livro, e sim transcrita da sua genealogia, no processo de habilitação de seus irmãos para ordenação sacerdotal (Tiradentes teve dois irmãos padres).
     De qualquer forma, a citação passa batida, sem maiores comentários do autor.
     Também a citação de um episódio em que Tiradentes ao se ver perseguido no Rio de Janeiro, e sem recursos, é obrigado a vender um escravo de sua propriedade, nos revela o quão natural era para os inconfidentes a escravidão, embora muitos deles tenham proposto a abolição, nas primeira leis que preparavam para a nova república que sonhavam fundar, enquanto outros argumentavam que isto iria arruinar a indústria extrativista de ouro em Minas Gerais.
     Mas a leitura da História da Inconfidência é importante, por nos guiar passso a passo nos acontecimentos de 1789. A incompetência do governo de D. Maria I em administrar a província que sustentava o fausto da corte portuguesa, e que pagou a conta pela reconstrução de Lisboa depois do terremoto que a destruiu, a corrupção dos seus governantes, os desmandos, violências e injustiças promovidos por eles, assim como o surgimento de uma burguesia nacional que via no exemplo da independência dos Estados Unidos um caminho para a fundação de uma nação soberana no Brasil.
     Os principais personagens estão lá, descritos, com seus nomes, sua ascendência e o papel que desempenharam na conspiração, especialmente do alferes (posto correspondente hoje a segundo-tenente) Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que também foi tropeiro, médico, cirurgião dentista e protético, além de outras qualidades que possuía, como os conhecimentos em mineralogia e a capacidade de desenhar plantas de terrenos para levantamentos do exército.  
    
    
     Também os fatos estão descritos com detalhes.
     Espanta o excesso de confiança e o descuido dos inconfidentes, na preparação da revolução e também a reação desproporcional da coroa portuguesa que podia ter simplesmente abafado o caso, mas preferiu transformar os inconfidentes, que caíram sem disparar um só tiro, em mártires do povo brasileiro, assustados que estavam pela revolução francesa ocorrida no mesmo ano de 1789.
     O medo da aristocracia portuguesa e a violência empregada na repressão ao movimento, que era amplamente apoiado pela população, funcionou como combustível para os ideais de libertação, que 33 anos mais tarde resultariam na proclamação da independência pelo próprio príncipe português.
     É uma pena que só estudemos a história do Brasil no ensino fundamental, quando ainda não temos condições de compreender a importância de movimentos como este, para a fundação da nossa nacionalidade. Os fundamentos sobre os quais se construiu o movimento mineiro podiam servir muito bem para muitas reivindicações que temos hoje, em relação aos governos que nos infestam com corrupção e desmandos, dentre os quais está expresso o direito dos povos a se rebelarem para depor do poder governantes corruptos e tirânicos, mesmo que seja pela violência, para recuperarem a sua soberania.
     Talvez por isto mesmo não se ensinem esses princípios nas nossas escolas, a não ser a criancinhas pequenas que ainda não tem condições de entendê-los, pois nossas classes dominantes aprenderam muito bem a lição com os portugueses sobre como oprimir e explorar o povo e morrem de medo de que um dia uma educação de qualidade liberte os brasileiros para enxergarem sua real situação e tomarem a si próprios a tarefa de construir esta nação.

CLIPE DA SEMANA

O clipe da semana é da música BECO DO MOTA, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant, na interpretação de Milton Nascimento.



 Clique no link e ouça a música:


RAPIDINHAS

Poluição do Rio Brumado
     Algo de muito errado parece estar ocorrendo com a estação elevatória da Embasa em Rio de Contas, responsável por bombear os esgotos da cidade para a estação de tratamento.
     Uma "língua" de esgoto in natura está saindo diretamente para o Rio Brumado, em frente à estação. Será que as bombas quebraram?

Estação elevatória de esgotos de Rio de Contas

Esgoto "in natura" sendo lançado no rio Brumado...

...e se acumulando nas margens do rio


     Enquanto isso a cidade está tomada por muriçocas, o que não é comum em Rio de Contas.
     Esperamos que a Embasa e as autoridades municipais tomem uma providência urgente, pois estamos em plena época de recrudescimento da epidemia de dengue.
     Este tipo de incidente já era de se esperar, dado o projeto absurdo de construir a estação de tratamento acima da cota da cidade, uma cidade que se situa sobre uma serra a 1000 metros de altitude.
     Teria sido tão simples fazer a estação na serra, para onde o esgoto correria por gravidade. Mas para que simplificar se eles podem complicar, não é mesmo?





HUMOR TRANSATLÂNTICO

Reengenharia


TRIBUNA ABERTA


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quarta-feira, 27 de março de 2013

POLITICANDO

Como "eles" agem
     Reproduzimos abaixo, texto do site Opera Mundi, sobre o plano de desestabilização que os americanos montaram na venezuela, para derrubar o ex-presidente Chavez, revelado pelo site Wikileaks. Utilizando ONGs criadas, aparentemente para defender os direitos humanos e as liberdades individuais, os americanos tramavam a derrubada do governo socialista de Chavez, para defender os interesses de suas empresas e de sua hegemonia na região.
     Sem dúvida, o documento é um alerta para todos os países da América Latina.
     Para ler o texto original, acesse o link abaixo:
Passo a passo, o plano da Usaid para acabar com o governo
 Chavez.

Após o fracasso do golpe contra Hugo Chávez em 2002, a embaixada norte-americana em Caracas resolveu tomar para si a tarefa de reorganizar a oposição venezuelana, apostando em uma estratégia de longo prazo que minaria o poder do governo. Em agosto de 2004, mesmo mês do referendo revocatório promovido pela oposição com amplo apoio da missão norte-americana, o texano William Brownfield chegou a Caracas, nomeado por George W. Bush, para assumir o posto de embaixador no país. Pragmático e sucinto, William Brownfield (foto ao lado) elaborou um plano de 5 pontos para acabar com o chavismo em médio prazo, como revela um documento do Wikileaks analisado pela Agência Pública.
     O documento secreto, enviado por Brownfield a Washington em 9 de novembro de 2006, relembra as diretrizes traçadas dois anos antes.
     “O foco da estratégia é:
     1) Fortalecer instituições democráticas,
     2) Infiltrar-se na base política de Chávez,
     3) Dividir o Chavismo,
     4) Proteger negócios vitais para os EUA,
     5) Isolar Chávez internacionalmente”,
escreveu Brownfield, hoje secretário anti-narcóticos do Departamento de Estado – órgão que cuida do treinamento de forças policiais estrangeiras pelos EUA, em vários países latinoamericanos.
     Entre 2004 e 2006, a Usaid (Agência dos Estados Unidos para Desenvolvimento Internacional) realizou diversas ações para levar adiante a estratégia divisada por Brownfield, doando nada menos de US$ 15 milhões a mais de 300 organizações da sociedade civil. A Usaid, através do seu Escritório de Iniciativas de Transição (OTI) – criado dois meses depois do fracassado golpe – deu assistência técnica e capacitação às organizações e colocou-as em contato com movimentos internacionais. Além disso, explica o documento, “desde a chegada da OTI foram formadas 39 organizações com foco em advocacy (convencimento); muitas dessas organizações são resultado direto dos programas e financiamentos da OTI”.
     Um dos principais objetivos da Usaid era levar casos de violações de direitos humanos para a corte interamericana de Direitos Humanos com o objetivo de obter condenações e minar a credibilidade internacional do governo venezuelano. Foi o que fez, segundo o relato do ex-embaixador, o Observatório das Prisões Venezuelanas, que conseguiu que a Corte emitisse uma decisão requerendo medidas especiais para resolver as violações de direitos humanos na prisão ‘La Pica’, no leste do país. Outra organização, a “Human Rights Lawyers Network in Bolivar State” (rede de advogados de direitos humanos no estado de Bolívar), apresentou à Corte Internacional um caso de massacre de 12 mineiros pelo exército Venezuelano no estado de Bolívar. O grupo foi criado, segundo Brownfield, “a partir do programa da Freedom House, e um financiamento da DAI distribui pequenas bolsas no programa”.
     A empresa DAIDevelopment Alternatives Inc – foi de 2004 a 2009 a principal gerente da verba da Usaid no país, tendo distribuído milhões de dólares a diversas organizações a partir da estratégia do governo norte-americano.
     Ela desembolsou, por exemplo, US$ 726 mil em 22 bolsas para organizações de direitos humanos, segundo o documento do WikiLeaks. Também ajudou a criar o Centro de Direitos Humanos da Universidade Central da Venezuela. “Eles têm tido sucesso em chamar a atenção para o Direito de Cooperação Internacional e à situação dos direitos humanos na Venezuela, como uma voz nacional e internacional”, explica o texano Brownfield no despacho diplomático.
     Outras áreas nas quais financiamento para ONGs ajudaria a concretizar a estratégia americana incluíam tentativas de neutralizar o “mecanismo de controle Chavista”, que utiliza “vocabulário democrático” para apoiar a ideologia revolucionária bolivariana, nas palavras do diplomata. “A OTI tem lutado contra isso através de um programa de educação cívica chamado ‘Democracia entre nós’, cujo princípio era ensinar ao povo venezuelano o que, de fato, significava democracia. Programas educacionais dirigidos, como tolerância política, participação e direitos humanos já atingiram mais de 600 mil pessoas”, diz o documento.

     Dividindo o chavismo

     Em seguida, o documento detalha as estratégias para “dividir o chavismo”, baseadas na concepção de que Chávez tentava “polarizar a sociedade venezuelana usando uma retórica de ódio e violência”. O remédio, na cabeça de Brownfield, seria dar auxílio a ONGs locais que trabalham em “fortalezas Chavistas” e com os “líderes Chavistas” para “contra-atacar a retórica” e “promover alianças”. Os esforços da Usaid neste sentido custaram US$ 1,1 milhão para atingir 238 mil pessoas em mais de 3 mil fóruns, workshops e sessões de treinamento, “transmitindo valores alternativos e dando oportunidade a ativistas de oposição de interagirem com Chavistas, obtendo o desejado efeito de tirá-los lentamente do Chavismo”.
     Exemplos são o grupo “Visor Participativo” composto por 34 ONGs formadas e supervisionadas pela OTI, para trabalhar no fortalecimento das municipalidades. “Enquanto Chávez tenta recentralizar o país, a OTI, através do Visor, está apoiando a descentralização”, escreve Brownfield.
     Outra iniciativa, a custo superior a US$ 1,2 milhões, promoveu a criação de 54 projetos sociais em toda a Venezuela “permitindo visitas do Embaixador a áreas pobres do país e demonstrando a preocupação do governo dos EUA com o povo venezuelano”, detalha Brownfield. “Esse programa confunde os bolivarianos e atrasa a tentativa de Chávez usar os EUA como um ‘inimigo unificador’”.
     Com o objetivo de “isolar Chávez internacionalmente”, o embaixador gaba-se de que a USAID, através das ONG americana Freedom House, financiou viagens de membros de organizações de direitos humanos da Venezuela ao México, Guatemala, Peru, Chile, Argentina, Costa Rica e Washington. “Além disso, o DAI trouxe dezenas de líderes internacionais à Venezuela e também professores universitários, membros de ONGs e líderes políticos para participarem de workshops e seminários, para que eles voltassem aos seus países de origem entendendo melhor a realidade da Venezuela, tornando-se fortes aliados da oposição venezuelana”.
     Brownfield termina o documento, escrito em 2006, com um alerta: “Chávez deve vencer a eleição presidencial de 3 de dezembro e a OTI espera que a atmosfera para o trabalho na Venezuela se torne mais complicada”. De fato, o embaixador saiu do país no ano seguinte, assumindo o mesmo posto na Colômbia antes de ser designado pelo governo Obama para cuidar de cooperação policial com outros países.
     Antes de Brownfield assumir a política dos EUA para a Venezuela o Escritório de Iniciativas de Transição (OTI) focava sua atuação no fortalecimento dos partidos políticos de oposição – como mostra outro documento do WikiLeaks, de 13 de julho de 2004 – incluindo um projeto de US$ 550 mil destinado a promover consultorias de especialistas latinoamericanos em liderança política e estratégia aos partidos, e um projeto de US$ 450 com o International Republican Institute (IRI) – do Partido Republicano -  para treinar os partidos de oposição a “delinear, planejar e executar campanhas eleitorais” em “escolas de treinamento de campanha”.
     Em 2010, sob crescente pressão do governo venezuelano, o escritório da OTI no país foi fechado, e suas funções foram transferidas para o escritório para América Latina e Caribe da Usaid.