segunda-feira, 31 de março de 2014

POLITICANDO

Por uma educação rural


           
          Quando trabalhei no Pradime, Programa de Apoio aos Dirigentes Municipais de Educação, do Ministério da Educação, fiquei responsável pela área de recursos materiais. Esse trabalho me levou a realizar uma pesquisa sobre as condições materiais das escolas públicas brasileiras, pesquisa que reproduzi posteriormente no meu livro Escola, Espaço e Discurso.
           O surpreendente, no resultado da pesquisa, foi verificar que a causa do suposto "atraso" da educação no nordeste estava no alto índice de habitantes nas áreas rurais.
           O nordeste é uma região onde o fenômeno de urbanização (migração rural paras as cidades) ainda não se completou. A Bahia é um exemplo disso, onde aproximadamente 50% da população ainda vive no campo ou em pequenas cidades, num território maior do que a França ou a Alemanha.
           Isso é ruim? Bem, do ponto de vista desenvolvimentista, viver no campo é sinônimo de atraso e o bom é ser um cidadão das cidades (desculpem o pleonasmo). Talvez por isso a educação nas áreas rurais brasileiras seja tão ruim, realmente muito ruim, muito pior do que nas escolas públicas urbanas, que já não são nenhuma maravilha.
           Isso se reflete nos indicadores gerais da educação brasileira, fazendo com que o nordeste apareça sempre como uma área problemática no campo da educação, embora a educação rural seja ruim em todo território brasileiro, inclusive nas unidades mais ricas da federação, situadas no sul e no sudeste do país,
           É claro que nas regiões mais industrializadas, sendo a população rural muito pequena em relação à urbana, esses indicadores se diluem, dando a impressão de uma superioridade regional, quando na verdade o que ocorre é a supremacia incontestável da educação urbana.
            O Brasil é um país antigo e, apesar do que digam, de tradições arraigadas. Nossa educação é tributária de raízes muito autoritárias, herança de uma colonização escravista, de uma monarquia escravista, de uma república de fazendeiros que se manteve no poder até 1930 e de duas ditaduras no século XX, a de Vargas, que durou 15 anos e a militar, que durou 21.
           Há apenas 29 anos nos livramos dos militares, mas mesmo assim, seus discípulos da direita mais conservadora se conservaram no poder até 2001, há apenas 13 anos atrás, quando o governo social-democrata do PT começou a inverter algumas prioridades no Brasil, ainda sob protestos de uma elite altamente conservadora, habituada a ver a maioria do povo sobreviver na miséria.

          É muito pouco tempo. Professores e diretores de escola (ou gestores, no jargão neoliberal), ainda são os mesmos dos tempos da direita, na maior parte do Brasil. Apenas agora uma nova geração de educadores começa a assumir os destinos da educação brasileira, ousando timidamente contestar os fundamentos neoliberais impostos nos governos de Fernando Henrique Cardoso, último expoente da direita a governar, mesmo assim minoritários e confusos, sem um projeto novo de educação voltado para a qualidade social, que liberte o povo da ignorância e da submissão aos grandes capitais e aos políticos, principalmente no interior desse gigantesco Brasil profundo.
          E não há área mais sensível à política e à ideologia do que a educação. Não se iludam com os discursos tecnocráticos, que apontam falta de escolas ou de verbas como culpa do atraso educacional do Brasil. Na verdade sobram escolas e verbas e a matrícula no ensino fundamental vem caindo há muitos anos, devido à queda na natalidade.
          Nem por isso a educação tem melhorado. E não adianta injetar mais e mais recursos, construir escolas de horário integral, colocar computadores, satélites e todo um aparato tecnológico, enquanto a discussão sobre a educação não entrar no espinhoso terreno da política.
         Na verdade o que precisamos é de uma reforma educacional que rompa com os fundamentos conservadores que consideram os pobres uma "classe perigosa", que precisa ser disciplinada, submetida, dominada, para que possa se adequar ao sistema de privilégios que continua vigente na nossa sociedade, se conformando em permanecer pobre para fazer a gigantesca máquina da economia funcionar, enquanto uma minoria se apropria da maior fatia dos benefícios gerados pela produção.
         Uma verdadeira reforma educacional deveria inverter esses valores, ensinando aos alunos pobres que esse é um sistema injusto e precisa ser modificado, que eles não precisam se conformar com o destino redutor que lhes é oferecido, mas devem sonhar em ser realmente protagonistas do seu país, virando a economia de cabeça para baixo e acabando com velhos e injustos privilégios.


         Mas é aí que entramos no terreno perigoso da política. Uma educação libertadora, que acabe com as filas na entrada da escola, com o militarismo de se perfilar para cantar o hino nacional, com a preponderância da disciplina sobre o conhecimento, abrindo as portas para o desconhecido, para um futuro imprevisível, talvez incontrolável pelas forças que dominam a política, mas certamente transformador no sentido de construir novas estruturas de poder na sociedade.
         E uma das providências fundamentais para começar essa transformação é acabar com o mito de que as cidades representam o progresso e as zonas rurais o atraso. Superar as diferenças entre cidade e campo sempre foi uma meta de todas as revoluções mundiais, que construíram as grandes nações modernas de hoje.
         Hoje ensino numa escola técnica de uma cidade pequena e sinto muito ao ver alunos dos povoados não conseguirem vir a aula por falta de transporte (apesar de um programa do governo federal nesse sentido), fazendo com que talentos promissores se percam.
         Ainda me surpreendo com propostas de pessoas bem intencionadas, principalmente ligadas a igrejas, de montar escolas técnicas para "tirar os pobres da rua", oferecendo cursos como corte e costura e culinária. Francamente, quem consegue crescer com isto hoje em dia? É melhor deixá-los nas ruas. Talvez lá eles aprendam a se revoltar contra esse sistema obsoleto e arcaico de privilégios.
          Um sistema nacional (de preferência federal) de educação rural, seria um bom começo para inverter essa lógica perversa, que só ensina o caminho da cidade, onde um destino de submissão aguarda o filho do camponês. O próprio deslocamento diário para a cidade para receber a educação a que tem direito, vai reforçando essa lógica de que é preciso abandonar o campo para crescer, para encontrar oportunidades. 

          Construir grandes escolas rurais, escolas-pólo, que possam receber alunos de uma determinada região sem grandes deslocamentos, inverteria isso, criando uma base política avançada no campo, que poderia subverter a ordem estabelecida pelos grandes proprietários de terra, de manter a produção sob seu domínio e os agricultores submetidos.
         Uma escola transformadora no campo inverteria os indicadores educacionais e a própria lógica da urbanização descontrolada, geradora das favelas e de toda violência que assola nossas grandes cidades.
         Quem tem coragem de fazer uma verdadeira revolução na educação brasileira, afrontando velhas e santas humilhações?
        
        
         
         
        
         
           

PAPO DE ARQUIBANCADA

Racismo no Futebol


    Meus amigos, quando penso que avançamos como seres humanos e todo o reconhecimento do sofrimento histórico dos negros, nos vemos frente à frente com o pior dos sentimentos do ser humano, o racismo.
     Combatido em todo o mundo, este sentimento desumano e imbecil tomou dimensões inaceitáveis, justamente no futebol, onde o maior de todos os tempos é um negro, Pelé.
Em Mogi Mirim, interior de São Paulo, o jogador do Santos, Arouca, foi ofendido pela torcida local, sendo chamado de macaco. No campeonato Gaúcho, o árbitro Marcio Chagas da Cruz foi xingado pelos torcedores e encontrou bananas em seu carro, após a partida entre Esportivo e Veranópolis. Em Mamoré, Minas Gerais, o lateral esquerdo do Uberlândia sofreu o mesmo tipo de ofensas.
Ontem, pelo campeonato espanhol, foi a vez dos nossos craques Daniel Alves e Neymar serem vítimas do racismo. Além de imitarem macacos, torcedores jogaram cascas de bananas no gramado. 
   O estádio do Mogi Mirim foi interditado por tempo indeterminado, o Esportivo, mandante no campeonato Gaúcho será julgado, podendo ser punido com a perda de nove pontos, esperamos que a federação espanhola seja rigorosa.
     Se isso está acontecendo nos estádios, é porque acontece também na sociedade.
     Precisamos de punições exemplares, caçando - pois esses são os verdadeiros animais irracionais - individualmente, cada um, pois, se no futebol, o esporte mais democrático do mundo ainda há este comportamento execrável, com certeza, na sociedade ele é bem maior.
     Diga não ao racismo !

CLIPE DA SEMANA


       A canção desta semana é DEPOIS DE TER VOCÊ, composta por Adriana Calcanhoto, interpretada por Adriana Calcanhoto e Maria Bethânia: curtam esta pérola da música brasileira.



DESTAQUE

Salvador, 465 anos
Foto de Rinaldo Grilo Filho

          Uma das cidades mais antigas do Brasil, e da América colonial, Salvador está completando 465 anos, cheia de problemas para resolver, com um futuro incerto pela frente, acossada pelo crescimento desordenado, pelo favelamento e pela especulação imobiliária.
          Depois de uma série de governos municipais populistas, que nada fizeram, a cidade procura agora reencontrar seu equilíbrio através da parceria inusitada entre o governo do Estado, liderado pelo PT e o  governo municipal, do DEM, duas correntes antagônicas na política, mas que vem dando as mãos em busca de soluções para impedir que o caos paralise a cidade.
          Muito mais do que uma cidade histórica, com um belo litoral, Salvador se tornou uma grande metrópole, moderna e estrangulada pelo seu próprio crescimento. As políticas dos governos passados que concentraram 70% da economia baiana em torno da capital, fizeram com que sua população explodisse, já passando dos 3 milhões de habitantes neste início de século, enquanto sua infraestrutura ainda está lá atrás, feita para atender a demandas do século passado.

         Uma grande reforma urbana será necessária para restabelecer o equilíbrio perdido, assim como uma política de interiorização de indústrias, que distribua melhor pelo imenso território do Estado as forças produtivas, mesmo que para isso seja preciso vencer resistências dos setores financeiro e comercial, que sempre dominaram a economia do estado, mantendo a circulação de riquezas restrita ao território da região metropolitana.

         Novas grandes cidades vão surgindo com o rápido desenvolvimento do interior, como Vitória da Conquista, Barreiras, Juazeiro  e Feira de Santana, exigindo uma nova visão do planejamento estadual, que alivie a capital e distribua melhor a população.
         A velha imagem bucólica da "boa terra", se dilui rapidamente na medida em que o comercio e os serviços se deslocam cada vez mais para as áreas modernas, deixando o centro histórico como uma imagem do passado, para os turistas.
          A própria imagem do baiano como uma pessoa calma e sem pressa, virou lenda. O stress domina a população como em qualquer grande centro, agravado em Salvador pelo acúmulo de problemas.

           Só agora a cidade começa a se voltar para implantação de um moderno sistema de transportes, integrando metrô e corredores de ônibus e implantação de novas vias que agilizem o tráfego intenso de veículos.
          Sua belíssima orla, com mais de 30 Km, permaneceu abandonada durante décadas, e só agora começa a ser re-planejada, para que volte a ser a grande área de lazer da capital, com seu imenso potencial turístico.
        
        Façamos votos de que Salvador reencontre seu caminho e volte a ser a cidade que encantou gerações de brasileiros, fazendo jus a seu imenso patrimônio ambiental, histórico e cultural.
        
         

POESIA DA SEMANA


O Catador

Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.


Manoel de Barros

RAPIDINHAS

Novidades na política



          Eduardo Jorge, ex-petista, acaba de ser escolhido candidato presidencial pelo Partido Verde.
          Sua plataforma é bem interessante e corajosa, colocando o dedo no nervo exposto da sociedade brasileira, na medida em que propõe a legalização do aborto, da maconha, a reforma do sistema eleitoral, garantindo um percentual de vagas para candidatos independentes e acabando com as coligações, além de proibir os agrotóxicos e colocar a sustentabilidade como um dos pilares da economia nacional, propor a redução do número de deputados, assim como os salários e privilégios de parlamentares municipais, estaduais e federais.
          Uma luz no obscuro panorama político brasileiro, marcado pelo conservadorismo oportunista de Aécio, Serra, Eduardo Campos e Marina Silva. Não acredito que possa vencer a eleição presidencial, mas pode marcar novas e importantes pautas para discussão nacional, se convertendo em alternativa real para 2018.
          Isso se não cair na besteira de procurar apoios conservadores como atalho para crescimento eleitoral. Como dizia aquele velho político: "Se atalho fosse bom não existiria caminho".

O pior do jornalismo

          Nada pior em termos de manipulação e informação tendenciosa que o Jornal da Globo, comandado por Willian Waack, acusado recentemente de trabalhar para a CIA, a agência de espionagem dos Estados Unidos.
           Sempre pronto a distorcer os fatos de modo a denegrir a imagem dos que combatem o império norte-americano e exaltar seus representantes, esta triste figura envergonha a profissão de jornalista, que diz exercer, enquanto na verdade representa apenas o papel de puxa-saco mor da grande nação do norte.

Lixo oceânico


          As buscas pelo avião desaparecido só estão mostrando que os oceanos da Terra viraram uma enorme lata de lixo.
          Quando eles pensam que acharam restos da aeronave se deparam com coitainers caídos de navios, restos de barcos pesqueiros e muito lixo, atirado ao mar pelas sociedades de consumo que vão se jultiplicando junto com o capitalismo.
          Enquanto isso os sequestradores devem estar rindo, com seu boeing bem escondidinho em algum lugar, bem longe das buscas no oceano índico, e pronto para jogá-lo em cima de algum alvo, ao estilo 11 de setembro.
           Que mundo triste!
  Um charme


          Anne Hidalgo, uma imigrante espanhola, naturalizada francesa, acaba de ser eleita a primeira prefeita de Paris.
          Militante do Partido Socialista do presidente François Hollande, Hidalgo foi a maior vitória do partido, numa eleição em que as políticas do presidente foram severamente punidas pelos eleitores.
          Além de representar uma afirmação das mulheres na política francesa, Hidalgo parece também simbolizar a renovação da política loca. Foi ela que inventou o sistema de bicicletas gratuitas, copiadas no mundo inteiro. É ecologista e charmosíssima.
          Voilá!
  
 


RISOS

Desde criança...





Piadas Contadas: segundas intenções...